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Orientação de Ministério durante gestão de Pazuello causou falta de vacinas para 2ª dose; entenda o que pode acontecer

Por Redação

02/05/2021 às 11:41:26 - Atualizado h√°
Dois dias antes de sair do cargo, general Eduardo Pazuello deu ordem para que os estados n√£o estocassem vacinas para a segunda dose. Agora, faltam vacinas e secretarias regionais precisam gerenciar atrasos. Linha tempo mostra mudan√ßas nas orienta√ß√Ķes do Ministério da Sa√ļde sobre reserva da segunda dose

As mudan√ßas na estratégia da vacina√ß√£o contra a Covid-19 podem ter colaborado para a falta de vacinas em v√°rios estados brasileiros. Na √ļltima semana, pelo menos oito capitais do pa√≠s pararam a imuniza√ß√£o por falta de doses.

Em fevereiro, o ent√£o ministro da Sa√ļde, Eduardo Pazuello, orientou as prefeituras a usar todo o estoque para garantir a primeira dose sem se preocupar com a segunda dose. Pazuello dizia que "com a libera√ß√£o para aplica√ß√£o de imediato de todo o estoque de vacinas guardadas nas secretarias municipais, vamos conseguir dobrar a aplica√ß√£o".

Dias depois, o Ministério da Sa√ļde voltou atr√°s e disse que os estados e munic√≠pios deveriam reservar a segunda dose da vacina CoronaVac, que tem um intervalo entre doses de 28 dias.

Um m√™s depois, o Ministério da Sa√ļde autorizou que todas as vacinas armazenadas pelos estados e munic√≠pios para garantir a 2¬™ dose fossem utilizadas imediatamente como 1¬™ dose.

Por que faltam vacinas?

O Ministério da Sa√ļde n√£o seguiu a recomenda√ß√£o dos especialistas, que determina que se deve guardar vacinas com prazo de validade relativamente curto e que exigem duas doses.

Quando o general Eduardo Pazuello era ministro da Sa√ļde, ele orientou as prefeituras a usar todo o estoque para garantir a primeira dose sem se preocupar com a segunda dose. Pazuello dizia que "com a libera√ß√£o para aplica√ß√£o de imediato de todo o estoque de vacinas guardadas nas secretarias municipais, vamos conseguir dobrar a aplica√ß√£o".

Em 21 de mar√ßo, dois dias antes de Pazuello deixar o cargo, a Secretaria de Vigil√Ęncia em Sa√ļde, o órg√£o do Ministério da Sa√ļde respons√°vel pela campanha de vacina√ß√£o, autorizou o uso imediato, para primeira dose, de todo o estoque de vacinas armazenadas pelos estados para a segunda aplica√ß√£o.

"O ministério fez isso, mas nós somos dependentes da China para os insumos farmac√™uticos ativos (IFAs). O erro do ministério foi ter feito essa orienta√ß√£o sem ter garantia de que a produ√ß√£o estava iniciada. Contar com IFA que nem saiu da China é uma situa√ß√£o complicada", diz a infectologista Ethel Maciel.

Ela afirma que, além dessa orienta√ß√£o equivocada, falta coordena√ß√£o nacional para a vacina√ß√£o no geral — por exemplo, cada estado decidiu qual a ordem de grupos que tinham mais prioridade.

Em 26 de abril, o novo ministro, Marcelo Queiroga, foi ao Senado para dizer que a orienta√ß√£o mudou e que, agora, o Ministério pede para que os estados armazenem metade do estoque para usar na segunda dose.

Ministro da Sa√ļde admite 'dificuldade' no fornecimento de vacinas para 2¬™ dose da CoronaVac

Falta de vacinas

Houve falta de vacinas contra a Covid-19 para aplicar a segunda dose em ao menos oito capitais do pa√≠s nos √ļltimos dias. As seguintes cidades chegaram a avisar que n√£o poderiam aplicar a dose de volta ou da CoronaVac ou da AstraZeneca:

Rio de Janeiro

Aracaju

Fortaleza

Macap√°

Natal

Porto Alegre

Porto Velho

Teresina

A cidade do Rio chegou a avisar que iria ter que adiar a aplicação da segunda dose em dez dias, mas depois voltou atrás.

Para os especialistas, os estados queimaram os estoques que deveriam ser destinados à segunda dose vacinando mais pessoas com uma dose, seguindo uma orienta√ß√£o dada pelo Ministério da Sa√ļde em 21 mar√ßo. Só em 26 de abril a orienta√ß√£o mudou (veja mais abaixo).

O G1 procurou o Ministério e até a √ļltima atualiza√ß√£o desta reportagem n√£o havia recebido resposta.

Segundo a infectologista Ethel Maciel, h√° muitas cidades pequenas com falta de vacina. "O profissional de sa√ļde na ponta que sofre, h√° até relatos de amea√ßa. A pol√≠cia foi chamada em v√°rios postos de sa√ļde porque o paciente v√™ que no cart√£o est√° escrito a data de volta, ele vai l√° e n√£o tem vacina", diz ela.

O Brasil está usando duas vacinas na campanha de vacinação: Butantan/CoronaVac e Oxford/Fiocruz. A CoronaVac foi testada com um intervalo de 28 dias entre as duas doses. Já a vacina de Oxford permite um espaçamento maior entre a primeira e segunda injeção: três meses.

Qual o problema se houver atraso na segunda dose?

Um intervalo maior entre a primeira e a segunda doses não deve influenciar no grau de proteção que as vacinas conferem, afirma a infectologista Rachel Stucchi, da Unicamp.

A tecnologia que é usada para a CoronaVac j√° é antiga e usada para combater outros patógenos, e isso permite concluir que um intervalo de mais do que 14 dias n√£o muda a resposta imune dos pacientes.

O problema é que com o atraso uma parte das pessoas que foram vacinadas apenas uma vez deixa de ir ao posto para tomar a segunda dose.

Entre os profissionais da sa√ļde, usa-se o termo ader√™ncia ao tratamento para descrever a medida em que as pessoas seguem o que os médicos determinam.

Um atraso implica uma ader√™ncia menor, diz Stucchi. "A pessoa que perde uma viagem até o posto de sa√ļde vai ter uma atitude de mais descompromisso, mas sem a segunda dose n√£o se garante a prote√ß√£o —mesmo se houver prote√ß√£o, dura pouco", ela afirma.

O que os municípios devem fazer?

As secretarias municipais de Sa√ļde precisam se mobilizar para evitar a queda de ader√™ncia ao tratamento com os atrasos.

A primeira coisa a fazer é entrar em contato com os pacientes que j√° estavam agendados e explicar que haver√° um atraso, para evitar que eles percam a viagem.

Quando as vacinas chegarem, é preciso telefonar novamente, dizer que o produto chegou e pedir para que as pessoas agendem uma data.

O atraso das entregas do Butantan

Em abril, o Butantan ficou sem matéria-prima vinda da China, interrompeu envase de doses da vacina CoronaVac. No dia 19 daquele m√™s, um novo carregamento chegou.

Em nota, o Butantan ressaltou que "quest√Ķes referentes à rela√ß√£o diplom√°tica entre Brasil e China podem sim afetar diretamente o cronograma de envio de insumo farmac√™utico ativo (IFA)" para a produ√ß√£o da vacina.

A demora na chegada do IFA fez com que o Instituto atrasasse em alguns dias a entrega de uma parte das doses que deveria ter sido repassada até o fim de abril —agora, o novo prazo é 10 de maio.

O Instituto afirma, no entanto, que "a responsabilidade pelo planejamento e log√≠stica de distribui√ß√£o das doses, além da orienta√ß√£o técnica aos estados em rela√ß√£o à utiliza√ß√£o dos dos estoques, é exclusiva do Ministério da Sa√ļde".
Fonte: G1
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