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Adolescente vai todos os dias a ONG para conseguir assistir aulas online durante a pandemia

Por Redação

31/03/2021 às 05:36:42 - Atualizado há
Aos 13 anos, Aylla enfrenta barreiras para acompanhar aulas por ensino remoto. Moradora de uma comunidade de São Vicente, no litoral paulista, ela não tem acesso a computador ou internet em casa. Ayslla relata que não tem internet em casa, e que por isso acorda todos os dias mais cedo para ir até ONG

Isabella Lima/G1

Sem computador, celular ou internet em casa, Ayslla Aguiar, de 13 anos, teve que driblar as dificuldades de acesso ao ensino remoto para não deixar de estudar durante a pandemia. Moradora de uma comunidade de São Vicente, no litoral paulista, a adolescente acorda todos os dias cedo e vai até uma ONG próxima para conseguir acompanhar as aulas online.

Pandemia aprofunda ainda mais a desigualdade entre os brasileiros em relação à educação

Em entrevista ao G1, a jovem contou que está no 8º ano e estuda na Escola Municipal Matteo Bei. "Eu estava morando na minha madrinha e fazia as lições lá, mas, por problemas financeiros, vim morar com meu irmão, e em casa não temos internet e celular. Então, todos os dias de manhã, venho até a ONG para poder estudar", conta.

Ayslla relata que ama estudar, e que sonha em um dia cursar direito. Para ela, o maior incentivo para não desistir de acompanhar as aulas, apesar das dificuldades, é conquistar uma vida melhor. "As aulas remotas me deixaram com dificuldades para acompanhar, é mais difícil aprender algumas coisas, e sem acesso à internet, não consigo fazer minhas atividades de casa. Eu até tive que aprender mais a mexer no computador por conta das aulas online. No começo foi bem difícil", conta.

Apesar das dificuldades, adolescente se esforça para um dia realizar sonhos e mudar de vida

Isabella Lima/G1

As barreiras enfrentadas pela adolescente também atingiram outras pessoas da família, como o irmão Edson Silva, de 25 anos, que atualmente é responsável por cuidar dela. Ele afirma que está desempregado, e antes da pandemia, havia voltado a cursar o 1º ano do colegial. Mas, com o fim das aulas presenciais, não conseguiu acompanhar as aulas remotas, e teve que parar mais uma vez de estudar. "O que mais quero é que minha irmã não deixe de estudar nunca, e tenho que ajudar ela com isso, acompanhar, trazer aqui na ONG, ou onde ela precisar, só não pode parar", relata.

Ayslla acrescenta, ainda, que a dificuldade de acesso não a faz perder nenhum dia de aula, mesmo que tenha que acordar mais cedo todos os dias para chegar até a ONG. "Eu sonho em ter uma profissão, ter uma casa, ajudar meu irmão e mudar de vida. E sei que estudar é o que pode me ajudar a conquistar tudo isso", afirma.

Para a pedagoga Aline Silva de Souza, de 34 anos, que é coordenadora de projetos da ONG e acompanha o ensino de Ayslla, há uma grande diferença de aprendizado entre as aulas remotas e presenciais. Como a ONG também está fechada durante a pandemia, e em alguns dias os voluntários não comparecem à sede, Aline também permite que Ayslla estude de sua casa, sempre que precisa.

"Na aula remota, a interação é mais complicada, e o tempo de aula é pouquíssimo, comparado com o que eles vivenciavam na sala de aula. Além da adaptação para cada forma de ensinar do professor pelo ensino online, alguns pedem para mandar as atividades por e-mail, outros pelo WhatsApp, então, vamos nos adaptando a isso. Eu sempre falo para a Ayslla que ela escolheu uma área que precisa de muito esforço, e que ela é capaz. O que sempre falo é que ela não deixe que a situação atual dela a deixe desistir dos sonhos, porque ela tem muita força de vontade", destaca.

ONG e trabalho social

A presidente da ONG Alfa e Ômega, Zilda Batista, de 66 anos, explica que a associação já atua há 18 anos na comunidade do Jóquei Clube, em São Vicente. "A iniciativa surgiu do coração de pessoas que tinham vontade de ajudar a trabalhar a autoestima das crianças e adolescentes. Alcançamos as famílias por meio dos projetos sociais", conta.

De acordo com ela, todos os sábados, das 9h às 12h, as crianças e adolescentes cadastrados no projeto vão pegar as atividades que ela ensina por meio de vídeo. Além disso, utilizam a impressora da associação para imprimir as atividades e provas passadas pela escola.

Por conta da pandemia, a ONG teve que paralisar alguns projetos, mas continua prestando apoio às famílias cadastradas. "Antes da pandemia, tínhamos 80 crianças, depois da pandemia, fomos para 230", relata.

"Ano passado, demos mais aulas de reforço para ajudar, com a falta de aulas presenciais. A maioria das crianças não tem celular para ter ensino remoto. Eles levavam as apostilas das escolas e acabamos ajudando a fazer as lições. Tem crianças de 10 anos que ainda não sabem ler, e isso me angustia. Porque ela fica com a autoestima baixa, com vergonha dos amigos, e eu fico muito triste de ver isso".

Na foto, Fátima - voluntária de ONG, Zilda, Ayslla, Aline e Marcos

Isabella Lima/G1

"Nossa ONG é um braço estendido para acolher. As famílias podem contar com a gente. A Ayslla nos deixa muito felizes, porque ela é muito dedicada, a gente vê que ela quer mesmo avançar, e apesar de todas as barreiras, ela não se deixa desanimar", destaca a presidente.

O filho de Zilda, Marcos Batista, de 37 anos, é coordenador de projetos da ONG. Ao G1, ele destacou que ele e a mãe fazem parte do Conselho Municipal de São Vicente, e que a instituição tenta olhar para as dificuldades da criança como um todo.

"O aluno da escola particular está à frente, tem acesso ao estudo mais próximo, enquanto o aluno da comunidade não tem isso. Então, há um direito violado. Muitas crianças passam fome, e isso também não as permite estudar, então, trabalhamos muito com isso, dando cestas básicas. Além de fortalecer a autonomia, o protagonismo, o psicológico dessas crianças. A Ayslla chega aqui 8h, então, se ela não consegue, por exemplo, ter uma boa noite de sono, não tem concentração para estudar. Quando falamos de crianças carentes, falamos de muitas barreiras que devem ser enfrentadas para que elas tenham acesso ao ensino remoto", afirma.

Para fortalecer as atividades de reforço aos alunos das comunidades que atende, a ONG está procurando por professores voluntários, que podem entrar em contato por meio das redes sociais.

Fonte: G1
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